Exportando “coxinhas”

21 de junho de 2018 4 Comentários »
Exportando “coxinhas”

Imagem: Charge sobre machismo na Copa do Mundo (Foto: Reprodução/Instagram | @cartunista_das_cavernas)

Confesso que nunca entendi muito bem o porquê da expressão “coxinha” tão falada no Brasil desde 2013. Sabia que era para identificar as pessoas que são contra programas sociais e foram para as ruas de verde e amarelo pedir o impeachment de Dilma Rousseff, a intervenção militar e outras tolices.

Agora, vendo vários brasileiros na Rússia assediando mulheres de forma grosseira e misógina, ventilando vídeos com esses fatos nas redes sociais, penso que o termo “coxinha” deve ter a seguinte explicação: pouco cérebro e muita massa no resto do corpo para falar e fazer bobagens.

Infelizmente agora o “tipo” virou produto de exportação, como se vê na Copa da Rússia. Além de ofender as brasileiras, pratica violência no estrangeiro, grava vídeo e divulga na internet. Desde 2013 uma legião deles invade as redes sociais com posts preconceituosos e ofensivos de todo tipo a todos os grupos não identificados com os mesmos, homens, brancos, direitistas e geralmente de classe média. Comentam em posts de amigos ou pessoas desconhecidas, sites e blogs, com insultos e xingamentos, só assim sabem se expressar. Não têm argumentos plausíveis ou ideias próprias, reproduzem o discurso pronto da “grande” mídia, dos conservadores e do mercado, sem referências academicamente.

Para quem não criticou com veemência a torcida canarinho na abertura da Copa de 2014 insultar ao vivo uma mulher presidenta para uma plateia de bilhões de pessoas ver, agora durma com essa vergonha internacional. Os brasileiros na Rússia que gravaram esses vídeos misóginos estão sendo notícia no mundo todo, comprovando nossa falta de educação e de civilidade além mar.

Os episódios ainda servem para comprovar o machismo reinante no Brasil, embora muitos (e infelizmente também muitas) não o vejam, e não reconheçam como necessária, urgente, a pauta feminista interessada em combater a discriminação e a desigualdade de gênero.

Nos últimos dois anos, temos acompanhado um retrocesso em todas as políticas públicas relativas a gênero no país. O Congresso tenta retirar direitos relativos à saúde sexual e reprodutiva, amparado em amplo lobby parlamentar da bancada conservadora chamada BBB (Bala, Boi e Bíblia). A Secretaria de Políticas para as Mulheres perdeu seu protagonismo no governo federal, virando um apêndice do Ministério da Justiça e agora do Ministério de Direitos Humanos. Investimentos em políticas públicas foram cortados, a exemplo do combate à violência contra meninas e mulheres.

Além disso, a discussão sobre gênero e diversidade nos currículos escolares tornou-se objeto de ferrenha luta em diversas instâncias da sociedade. Ao contrário do que muitos pensam, a reflexão sobre gênero nas escolas não visa transformar crianças em lésbicas ou gays, mas poderia contribuir a médio e longo prazo para uma cultura de compreensão das desigualdades históricas entre homens e mulheres, fomentar o respeito às diferenças e uma cultura de paz.

O episódio vergonhoso da Copa do Mundo só reforça o reconhecimento de nossa cultura violenta, misógia e feminicida: somos um dos países do mundo onda mais se mata mulheres pelo fato de serem mulheres. Mais educação ajudaria a formar homens e mulheres cientes de suas qualidades e diferenças, que não se anulam, mas se complementam, e evitaria casos assim, que não serão esquecidos.

4 Comentários

  1. Marina junho 21, 2018 at 21:05 - Reply

    Muito bom.

  2. Constancia Lima Duarte junho 21, 2018 at 22:00 - Reply

    Excelente texto. Muito claro, lúcido e pertinente. Parabéns Alessandra!

  3. Angelita Ferrari junho 21, 2018 at 22:53 - Reply

    Seu texto traduziu tudo o que nós sentimos. Parabéns!

  4. Rizolete Fernandes junho 21, 2018 at 23:35 - Reply

    Um texto bem construído, objetivo, que deveria ser lido e debatido em sala de aula.

Deixe um comentário