Mafalda completa 50 anos com muita atualidade

23 de abril de 2015 1 Comentário »
Mafalda completa 50 anos com muita atualidade

Jornal Mulier – Outubro de 2014, Nº 129

A menina argentina Mafalda também esteve atenta às reivindicações das mulheres nas décadas de 1960 e 1970

A personagem infantil Mafalda nasceu oficialmente no ano de 1964, quando foram
publicadas tiras de sua história em quadrinhos na revista argentina “Primeira Plana”.

Criada inicialmente para ilustrar uma propaganda de eletrodomésticos, que não foi veiculada, a personagem foi recuperada por seu criador Quino, o argentino Joaquin Salvador Lavado, quando lhe foi encomendada uma tira para a revista citada. O sucesso foi imediato na Argentina, por retratar a classe média do país e por relatar os principais momentos do cenário mundial, das agitações políticas, sociais e culturais dos anos 1960.

Posteriormente, foi sucesso em todo o mundo principalmente por retratar com simplicidade e profundidade não apenas os problemas mundiais, mas questões universais como a luta pela igualdade social, direitos humanos, pacifismo, sexualidade, religião e feminismo.

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Por que uma menina?

A pergunta nem mesmo Quino soube responder. O criador de Mafalda disse não saber o motivo de ter escolhido uma personagem feminina para as histórias, assim como não pensou que as ideias de uma menina tão ingênua como irreverente, tão reflexiva quanto contestatória iriam correr o mundo. Mas correram, e ainda correm, agora com a facilidade das redes sociais, que muito reproduzem os quadrinhos de Mafalda, deixados de ser escritos em 1973, mostrando não apenas o gosto pela personagem, mas o quanto seu pensamento continua atual.

Desde 1966, quando foi exportada para o Uruguai, Mafalda vem sendo publicada em edições em diversos idiomas (aproximadamente 40) na América do Sul, América do Norte, Europa e Ásia – no Japão, por exemplo, chegou em 2007, em livro de 174 páginas no idioma local.

Perda da inocência

Embora seja uma criança, Mafalda consegue mesclar sua inocência infantil com indagações impertinentes, ácidas, sinceridade possível de ver em comentários de muitas crianças. É como se Mafalda perder-se a inocência ao deparar-se com os problemas do mundo. Ela vive em um mundo de guerra e miséria, em uma América Latina dependente economicamente e politicamente dos Estados Unidos, em um país repleto de contrastes sociais. Dessa forma, mostra-se descontente e questionadora, chocando o mundo com sua simplicidade lógica e honestidade.

Em uma de suas tiras mais famosas, ela exclama: “Parem o mundo que eu quero descer!”. Ela não suporta mais as guerras e as injustiças sociais que vê acontecer. Um de seus brinquedos favoritos é um globo terrestre com o qual sempre aparece brincando e refletindo. Certa vez apresentou-o a seu ursinho de pelúcia e disse: “Vê este mundo? Sabe por que é lindo? Porque é uma maquete, o original é um desastre!”.

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Em outra história, Mafalda ouve o noticiário na rádio sobre as últimas notícias do mundo. Com uma aparência atônita, olha para seu globo terrestre e diz: “Se você tivesse fígado… que hepatite, hein!”. Em outro desenho, Mafalda enfaixa o globo, que está em cor vermelha, coloca-lhe termômetro, dá-lhe remédio. Nada mais atual se analisarmos o mundo de nossos dias.

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O mundo dos adultos realmente não é compreendido por Mafalda. Em um momento de conversa com uma amiga, reflete sobre a frase da mesma: “É, tudo bem, trabalhar para ganhar a vida, claro! Mas por que é preciso desperdiçar a vida que a gente ganha trabalhando para ganhar a vida?”.

Mafalda e o feminismo

Nos quadrinhos de Quino, pode-se também encontrar questionamentos sobre o lugar da mulher na sociedade, os papéis tradicionais da mesma em um mundo em mudança. A década de 1960 foi um marco para se pensar estas questões em função da revolução sexual em curso com o lançamento da pílula anticoncepcional, que proporcionou à mulher uma maior autonomia sobre seu corpo e seus desejos, desvinculando a vida sexual da maternidade.

Mafalda não ficou fora desse debate. Diante do seu globo terrestre e da mãe derramando-se em lágrimas cortando uma cebola, a menina pergunta: “Pensei que se interessaria querer algo mais altruísta que uma cebola”. Em outra, próxima à mãe lavando roupas, faz a seguinte indagação: “Mamãe, o que gostaria de ser se vivesse?”. Ou seja, a garotinha questiona a mãe em seu universo limitado de dona de casa e seus afazeres domésticos, sugerindo que a mesma sequer vive.

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Inconformada com o machismo, responde assim a um vendedor que bate a sua porta e pergunta se o chefe da família está em casa: “Nesta família não há chefes, somos uma cooperativa”, batendo a porta na cara do homem, que fica sem entender a atitude da menina. Em uma de suas tiras afirma: “O mau de grande parte da família humana é que todos querem ser o pai”. Nada mais antipatriarcal.

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Mafalda também adianta preocupações que hoje são um problema para as mulheres: a insatisfação com o corpo. Um dia Mafalda deparou-se com a mãe, de biquíni, em prantos. Perguntou-a o motivo do choro e recebeu como resposta: “Porque do verão passado para este engordei, e o biquíni me deixou horrível”. E Mafalda retruca: “E eu te diria que mais da metade da humanidade não pode engordar nem um grama porque não teve o quê comer, mas você precisa ser consolada, não ficar como uma estúpida, não é?”.

Com uma amiga que faz projetos para quando for adulta, desejando ter muitos vestidos, Mafalda responde: “E eu (quero) ter muita cultura!”. Outra reflexão da personagem resume as duas citadas logo acima. Segundo Mafalda, “à medida que envelhecem as mulheres ganham peso. Isso ocorre porque acumulamos muita informação em nossa cabeça”.

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Uma representante da juventude

Em 1975, Quino foi convidado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) para ilustrar o cartaz da instituição com Mafalda para a Declaração dos Direitos das Crianças. É uma mostra da importância da personagem, que como disse Umberto Eco, foi uma heroína do seu tempo. Segundo o autor italiano, “Mafalda vive numa dialética contínua com o mundo adulto, que não ama nem respeita, ridiculariza e repudia, reivindicando o direito de continuar a ser uma menina que não quer incomodar o universo adulto dos pais”. E ela continua mais atual do que nunca com suas colocações impertinentes para uma criança, mas verdadeiras.

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1 Comentário

  1. fabricio abril 19, 2017 at 22:17 - Reply

    O trabalho possibilita ao homem concretizar seus sonhos, atingir suas metas e objetivos na vida, o trabalho com que o indivíduo demostre ações, iniciativas, desenvolve habilidades, o trabalho faz com que aprenda a conviver com outras pessoas. Infelizmente a desigualdade entre homens e mulheres na divisão de trabalho ainda existe, mas estamos no caminho certo, hoje existem mulheres no cargo no governo, judiciário, como exemplo a ministra Carmem Lúcia (STF), no auto escalão da justiça como presidente do tribunal e também existem mulheres nas diretorias e presidências das maiores empresas do mundo. Temos um caminho a seguir, chegamos lá. Na minha casa meus pais sempre trabalharam fora, eu e meu irmão sempre mantemos a casa em ordem para quando meus pais chegassem tava tudo certo. Por esse motivo, todos em casa trabalham, cada um faz sua parte, não deixa tudo pra minha mãe. Fica a dica, a desigualdade vem de berço, tem que começar a ensinar as nossas crianças desde os primeiros passos, em casa, no parquinho, na escola, na educação.

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