Cinema brasileiro homenageia Ruth de Souza, a primeira atriz brasileira indicada a um prêmio internacional de cinema e a primeira atriz negra protagonista de uma novela no Brasil

31 de março de 2015 Comente »
Cinema brasileiro homenageia Ruth de Souza, a primeira atriz brasileira indicada a um prêmio internacional de cinema e a primeira atriz negra protagonista de uma novela no Brasil

Jornal Mulier – Novembro de 2013, Nº 118

Talento de Ruth de Souza pode ser apreciado em quase sete décadas em trabalhos no teatro, no cinema e na TV

A maior premiação do cinema nacional, o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro,
homenageia na edição 2013 a atriz Ruth de Souza, de 92 anos e com mais de 68 anos de carreira, a contar da primeira peça de teatro encenada em 1945: “O Imperador Jones”, de Eugene O’Neil.

Desde lá, foram inúmeras outras peças teatrais, papéis no cinema e na teledramaturgia, além de muito pioneirismo. Foi a primeira atriz negra a representar no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1945, com a referida peça com a qual iniciou sua carreira, a primeira negra a interpretar no Brasil a personagem Desdêmola de Shakespeare, em “Otelo”, a primeira atriz brasileira indicada a um prêmio internacional de cinema, o “Leão de Ouro” no Festival de Veneza em 1954 por sua participação em “Sinhá Moça”, e a primeira atriz negra protagonista de uma novela no Brasil, “A Cabana do Pai Tomás” em 1969.

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Nascida no Rio de Janeiro no ano de 1921, Ruth de Souza viveu com a família até os nove anos em uma fazenda na pequena cidade de Porto Mariano no interior de Minas Gerais. Voltou para o Rio de Janeiro com a mãe e três irmãos depois da morte do pai, passando a viver em uma vila de lavadeiras e jardineiros no bairro de Copacabana.

O interesse pelo teatro começou quando ainda era jovem principalmente por influência da mãe, que a levava a sessões de teatro e cinema, além de récitas no Teatro Municipal. Sempre incentivada pela família, juntou-se ao Teatro Experimental do Negro (TEN), fundado por Abdias do Nascimento em 1944. O objetivo da companhia era a valorização do negro no teatro e a criação de uma nova dramaturgia, além de desenvolver um trabalho pela cidadania, recrutado inclusive atores entre operários, empregadas domésticas, favelados sem profissão definida e modestos funcionários públicos.

No grupo, ela estreou como atriz na peça “O Imperador Jones”, seguindo atuando em outros clássicos na companhia. Por seu talento e dedicação, foi indicada por Paschoal Carlos Magno para receber uma bolsa de estudo da Fundação Rockfeller, indo estudar na Universidade Harvard, em Washington, e na Academia Nacional do Teatro Americano, em Nova Iorque. Além da dramaturgia, nos Estados Unidos a atriz pôde aperfeiçoar-se em técnicas de iluminação, som, vestuário, dança e música.

Carreira cinematográfica

A carreira de Ruth de Souza no cinema teve início a partir da encenação da peça “Terras do sem fim”, de Jorge Amado, após a mesma virar roteiro de filme. O próprio Jorge Amado indicou a atriz para viver no cinema o papel desempenhado no teatro, tendo o filme estreado em 1948, produzido pela companhia cinematográfica Atlântida sob o título “Terra Violenta”.

A partir daí, sua carreira prossegue no cinema em diversas produções das três empresas cinematográficas brasileiras: Atlântida, Maristela Filmes e Vera Cruz. Por seu desempenho no filme “Sinhá Moça”, de 1953, Ruth de Souza concorreu ao prêmio de melhor atriz no Festival de Veneza no ano de 1954, disputando com as atrizes de Hollywood Katherine Hepburn, Michele Morgan e Lili Palmer, para quem perdeu por apenas dois pontos, mas ficando na história por ser a primeira atriz brasileira a disputar uma premiação internacional de cinema.

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Muitos outros filmes – “Ravina” (1958), “Assalto ao Trem Pagador” (1962) – e peças teatrais foram encenados por Ruth de Souza – “Réquiem para uma Negra” de William Faulkner (1983), “Orfeu da Conceição” de Vinícius de Moraes (1990), “Zumbi” de Gianfrancesco Guarnieri, Augusto Boal e Edu Lobo (1993) e “Anjo Negro” (1994) de Nelson Rodrigues, atuações responsáveis pela conquista de inúmeros prêmios pelas atuações e contribuição às artes cênicas brasileiras, a exemplo da Comenda do Grau de Oficial da Ordem do Rio Branco da República Federativa do Brasil em 1988 e o Prêmio Ministério da Cultura no ano de 1999.

Pioneirismo nas telenovelas

Nos meios de comunicação de massa, Ruth de Souza trabalhou em radionovelas e teleteatros nas TVs Tupi e Record nas décadas de 1950 e 1960. Sua primeira novela foi na TV Excelsior, “A Deusa Ferida”, em 1965, interpretando um papel de uma empregada subalterna, uma mucama bisbilhoteira, levando mais tarde a atriz a criticar as dificuldades de reconhecimento de atores negros na televisão brasileira.

Contratada pela Rede Globo em 1969, viu-se envolvida em uma das primeiras e maiores polêmicas sobre questão racial na televisão brasileira, lembra Joel Zito Araújo no livro “A Negação do Brasil”.

Apesar de ser a primeira atriz negra protagonista de uma novela, “A Cabana do Pai Tomás”, no mesmo ano, ela era a esposa do personagem de Sérgio Cardoso, um dos maiores galãs da época – que foi pintado de preto para interpretar um personagem negro. No entanto, no meio da novela, surgiram protestos de atrizes brancas para que seus nomes fossem colocados nos créditos da novela antes do nome de Ruth de Souza, logo depois tendo seu papel declinado constantemente na trama.

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Em depoimento à Fundação Nacional de Artes (Funarte), Ruth de Souza afirma que, quando começou na televisão, os produtores simplesmente não conheciam atores negros, sendo os papéis normalmente estereotipados: o Pai João, a Mãe Maria e o moleque de recado.

Sobre o assunto, disse por meio de entrevista para o livro “A Negação do Brasil” que os autores veem o negro como serviçal: “o ator negro tem que se impor, senão ele fica fazendo eternamente o serviçal. Há muitas atrizes negras que aceitam papéis de serviçais e não conseguem questionar o autor (…) fiz bons papéis porque quando cheguei à televisão eu já tinha reconhecimento, e tinha feito bons papéis no cinema”.

Por este reconhecimento, Ruth de Souza pôde questionar publicamente o autor Gilberto Braga em 1985. Na novela “Corpo a corpo”, a primeira novela a apresentar uma família de classe média negra, Ruth interpretava o papel da mãe da protagonista da trama. A família acaba sendo prejudicada com a morte do pai em um acidente, tendo que ir viver em um quarto de pensão precária em virtude da queda brusca de seu padrão de vida.

A falta de verossimilhança da novela em relação à realidade de uma família de classe média levou Ruth de Souza a criticar o autor por meio da imprensa. Segundo ela, o público vinha cobrando dela o motivo do desmembramento da família, cuja atriz esperava que tivesse mais função de família negra: “há muito venho cobrando dos autores, pois geralmente eles vêm estereotipando (negro); os personagens têm sido sempre negativos. Nessa novela, temos uma família bem constituída, filhos estudando. De repente, com a morte do pai, a família se desmembra. O personagem segue, mas não é exatamente como eu esperava. Estou sendo honesta: acho que tenho muito mais para dar como atriz; que o meu papel podia ter uma outra desenvoltura (…) Até agora, ninguém se preocupa ou pensa com o sentimento do negro”.

Apesar de Gilberto Braga ter considerado a atitude da atriz de “infeliz” e “antiética”, as críticas parecem ter surtido efeito. No fim da novela, a personagem de Ruth casa-se com um empresário negro, o primeiro sobre o qual se tem notícia em uma telenovela, ressalta Joel Zito Araújo.

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Alguns anos depois, em 1989, na novela “Pacto de Sangue”, Ruth de Souza interpretou uma personagem na plenitude do orgulho negro, numa história também de exaltação à força das mulheres.

Logo após o ano do centenário da Abolição da Escravatura, a trama da novela incluía um grupo de heroínas negras integrantes de um quilombo, encarregado de acolher mulheres grávidas para garantir liberdade às crianças nascidas lá. O quilombo era chefiado por uma babalorixá, Mãe Quitinha, interpretada por Ruth de Souza, estadista e mediadora de duas etnias em conflito. Ela sempre aparecia em seu trono de rainha africana e babalorixá. A novela, segundo Araújo, trouxe novas atitudes frente ao escravismo e o racismo, independentemente da estilização dos personagens.

Além de telenovelas, minisséries e casos especiais na TV, Ruth continuou a marcar presença no cinema, participando de produções de cineastas de uma nova geração, interpretando papéis em filmes de Walter Salles, “A Grande Arte”, (1991), Aluísio Abranches, “Um Copo de Cólera” (1999) e Joel Zito Araújo, “Filhas do Vento” (2004).

Indagada sobre sua carreira, Ruth de Souza, em depoimento à Funarte, disse que o Brasil lhe dá o devido valor, não podendo se queixar. Fez uma carreira bonita e foi recompensada atuando em diversos papéis no teatro, no cinema e na televisão. “Tenho consciência que meu nome é respeitado”. Para quem deseja seguir a profissão, deixa um conselho: levar a sério, saber que é uma profissão digna, embora mais difícil do que se imagina.

Fonte

ARAÚJO, Joel Zito. “A Negação do Brasil: o negro na telenovela brasileira”. São Paulo: SENAC, 2000.
SCHUMAHER, Schuma; BRAZIL, Érico Vital (orgs.). “Dicionário Mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 2000.
WWW.funarte.gov.br – Atores do Brasil – Biografia de Ruth de Souza. Disponível em: http://www.funarte.gov.br/brasilmemoriadasartes/acervo/atores-do-brasil/biografia-de-ruth-de-souza/
WWW.geledes.org.br

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